sábado, 29 de junho de 2019

Capa do livro Almoço de domingo


A capa é uma criação de Edusá, após a leitura dos contos que compõem o livro! Meu agradecimento a esse grande profissional que captou toda a essência de Almoço de domingo!

sábado, 22 de junho de 2019

Pensamentos 1

"Não ande atrás de mim, talvez eu não saiba liderar. Não ande a minha frente, talvez eu não queira segui-lo. Ande ao meu lado, para que podemos caminhar juntos" Provérbio indígena UTE


domingo, 21 de abril de 2019

Oitenta tiros

Oitenta tiros,
Oi ................................................................................ tenta não morrer,
Oi ................................................................................ tenta viver,
Oi ................................................................................ tenta sobreviver.
Oitenta velas acesas,
Mais uma vida, uma morte
Amanhã acendo mais uma.

sábado, 2 de março de 2019

Hip Hop – Geneologia


HIP HOP Geneologia, título original HIP HOP Family Tree, é um quadrinho com argumento, texto, letra e ilustração de Ed Piskor. Lançado no Brasil pela Veneta, o livro possui dimensões de 31,5x23,0 com, capa dura, colorido. As 128 páginas narra como foi a história do nascimento do HIP HOP nos Estados Unidos.

Foi fabulosa a ideia de narrar em quadrinho a origem do movimento do final da década de 1970 e que ainda hoje movimenta o mercado da música. HIP HOP Geneologia ganhou vários prêmios, dentre eles o Eisner Awards, o mais importante dos quadrinhos norte-americanos. A versão brasileira, traduzida por Mateus Potumati recebeu o prefácio do rapper nacional Emicida.

Emicida faz o link entre as Lianhuanhua, as primeiras histórias em quadrinhos originados na China com os grafites. Destaca que os “Mcs e quadrinistas possuem olhos de câmera fotográfica”, olhos que registram a realidade a sua volta e traduz nas rimas suas percepções e emoções. Para Emicida, o HIP HOP é uma porta e um “código aberto de compartilhamento” que permite a muitos jovens deem continuidade a história que foi iniciada nos meados da década de 1970.

A narrativa de Piskor é sobre o Hip Hop e não sobre os Djs, MCs e a música. Ele traça uma linha que começa no “deteriorado South Bronx”, onde o DJ Kool Herc anima o público em um local na avenida Sedgwick, 1520. Ele é tido como o criador do carrossel, a mixagem de uma batida de uma música em outra.

Grandmaster, Grandwizard Theodore (criador do scratch), Afrika Bambaataa, os grupos The Treacherous Three, The Cold Crush Brothers, Funky Four Plus One, The Fantastic Five e muito mais dão corpo para o livro.

Segundo Santos (2017), a paternidade do HIP HOP não possuem consenso. Alguns dizem que foi Kool Herc, outros que foi Bambaataa. Apesar de Piskor retratar a sequência Herc – Bambaataa, os dois eram contemporâneos e influenciados pelo mesmo contexto periférico, marginalizado, onde a música constitui uma alternativa a violência.

movimento foi uma guinada na violência das gangues. Santos (2017) citando Chang (2005), relata as disputas de territórios entre os Ghetto Brothers (jovens latinos americanos) e os Black Spade (jovens negros). Bambaataa, então com 20 anos e lider dos Black Spade, firma um tratado de paz que garantiria a segurança de parentes, vizinhos e delimitaria territórios.

Ao se entregarem à música, as batalhas passaram a ser disputadas nos palcos. O fenômeno cultural que atravessou a década de 80 e 90 chegando ao século 21 não passou despercebido das gravadoras. Os discos desapareciam da loja, tamanho era o frenesi da juventude.

Das mixagens a incorporação de rimas elaboradas e com conteúdos políticos, de denúncia ou de empoderamento, dos grafites até a arte de Basquiat, o HIP HOP constituiu um movimento cultural da periferia que ganhou o mundo. Não podemos negar a potência do movimento. Ed Piskor soube trabalhar bem e manteve em alto e bom tom toda a narrativa. Ou deveria falar bom som?

O leitor não irá se arrepender. O material é uma ótima fonte de consulta. Piskor coloca todas as referências que ele usou e inclusive as músicas que ele cita e que os DJs utilizavam. Além da aventura gráfica, podemos relembrar como eram os primeiros breaks e músicas. Sensacional!

Bibliografia

Piskor, Ed. Hip Hop Geneologia / Ed Piskor – Revisão de Mateus Potumati. São Paulo. Veneta, 2016. 128p.

Santos, Maria Aparecida Costa dos. O UNIVERSO HIP-HOP E A FÚRIA DOS ELEMENTOS. COPENE 2018.

HIP HOP Geneologia – Martins Fontes: https://www.martinsfontespaulista.com.br/hip-hop-genealogia-529354.aspx/pacesso em 2 de março de 2019.


quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Educação para “vir-a-ser”


Investir em educação seria a solução para as constatações de José Mujica e Achille Mbembe? Contrapondo o capital, poderemos salvar nossa “vir-a-ser” humano em meio a luta desenfreada pelo “vir-a-ter”?

Segundo o relatório de 2018 da FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations, a fome aumentou no mundo nos últimos três anos, porém ao compararmos com dados de 2005, a América Latina e Caribe conseguiu reduzir o quadro de desnutrição. Deixamos a marca de 9,1 % de subnutridos em 2005 para 6.1 % em 2017. Destaco a América do Sul que atingiu a marca de 5 % de pessoas subnutridas em 2017.

Esses números, apesar de ainda calamitosos, refletem as políticas de divisão de renda e combate a fome implementadas nesses anos para o combate e a redução da fome como: Fome Zero (Brasil), o Plano Nacional de Alimentação e Nutrição (Colômbia), os programas de segurança alimentar (Venezuela).

Dados como esse justificam as palavras do ex-presidente uruguaio José Mujica em entrevista dada a BBC: “Conseguimos, até certo ponto, ajudar essa gente (pobres) a se tornar bons consumidores. Mas não conseguimos transformá-los em cidadãos.”
Mujica reflete que as políticas ajudaram uma pequena parcela da população a deixar a extrema pobreza, por ser algo urgente, por ser algo imediato em nossas consciências. Entretanto, para o ex-presidente não resolvemos nossos problemas mais básicos, o que resulta em condições brutais de vida.

Do ponto de vista político, o historiador, pensador pós-colonial e cientista político Achille Mbembe nos alerta que a era humanista está no fim. “Outro longo e mortal jogo começou. O principal choque da primeira metade do século XXI não será entre religiões ou civilizações. Será entre a democracia liberal e o capitalismo neoliberal, entre o governo das finanças e o governo do povo, entre o humanismo e o niilismo”.

Mbembe destaca que a noção humanística e iluminista do sujeito racional capaz de deliberação e escolha será substituída pela do consumidor conscientemente deliberante e eleitor. Essas pessoas, com seus valores arruinados pelo capitalismo neoliberal estão convencidas que seu futuro imediato será uma exposição contínua à violência e a ameaça existencial.

Deixamos de ter valores, afetos e racionalidade para ter dinheiro e comprar tudo aquilo que achamos necessário. Nos fundamentamos e construímos naquilo, que materialmente, consumimos. Os valores tradicionais tornaram-se infundados e a existência perdeu o sentido. Como consumidores, abandonamos o “vir-a-ser” para “vir-a-ter”, nos tornamos inumanos.

O princípio da filosofia Ubuntu me leva a refletir que temos uma saída para as dificuldades apontadas por Mujica e Mbembe. Para Ramose, 1999, ser humano é afirmar a humanidade por reconhecimento da humanidade de outros e, sobre essas bases, estabelecer relações humanas com os outros. Essa base de pensamento precisa ser incorporada à educação.

Ubuntu entendido como ser humano; um humano respeitável e de atitudes cortezas para com outros pode e deve se tornar uma base das relações humanas. Uma base que alicerce a pedagogia para que deixemos de construir consumidores-eleitores para desenvolver cidadãos conscientes de si e dos outros. Cidadão que tenham consciência de sua autonomia.

A educação que desenvolve a autonomia do pensar certo, leva ao fazer certo. Freire, 2016, insiste que a educação e todos aqueles que dela fazem parte, precisam assumir um pensar e fazer com ética. Em nossas escolas estamos criando consumidores ou cidadãos?

A escola, pública ou privada, pautada em valores éticos pode vir a ser o contraponto ao “vir-a-ter”. O investimento na educação formal e não formal que valorize ideais humanísticos e de consciência autônoma do “vir-a-ser” porque o outro é, sendo assim, somos, ou seja, a educação-ubuntu, pode ser uma saída para esse quadro tão desprovido de valores e artificialmente imposto pelo neoliberalismo.

Referencias bibliograficas


FAO, IFAD, UNICEF, WFP and WHO. 2018. The State of Food Security and Nutrition in the World 2018. Building climate resilience for food security and nutrition. Rome, FAO. Licence: CC BY-NC-SA 3.0 IGO.

Ramose, Mogobe B. African Philosophy Ubintu. Harare: Mond Books, 1999, pag. 49 – 66. Tradução Arnaldo Vasconcelos.

Freire, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa / Paulo Freire – 53ª ed. - Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016.

Mattei, Lauro. POLÍTICAS PÚBLICAS DE COMBATE À FOME NA AMÉRICA LATINA: evidências a partir de países selecionados – PESQUISA & DEBATE, SP, volume 19, número 1 (33) pp. 85-101, jan./jun. 2008.1.


domingo, 14 de outubro de 2018

Drogas: liberar, sim ou não?



Compartilhei uma “meme” que convidava a todos os usuários de drogas ilícitas a boicotar o candidato conservador que disputa nossas eleições em 2018. Alguns amigos me questionaram e prometi que explicaria.
A violência se tornou uma prática sem fim. No lugar de cada narcotraficante abatido ou aprisionado, surge dois outros dispostos a iniciar uma nova guerra pelo território e pelo lucrativo negócio.
Drogas ilícitas, liberar sim! Me posiciono a favor da liberação ampla das drogas, a começar pela maconha. A princípio, parece uma loucura, mas me guio por algumas ideias liberais.

Segundo a reportagem do jornal Hoje em Dia, de 7 de janeiro de 2017, o narcotráfico no Brasil movimenta R$ 15,5 bilhões por ano. Somente a maconha gira em torno de R$6,7 bilhões. Tamanho negócio, é alvo de disputas do crime organizado e promove uma das maiores matanças do globo. Dados da Secretaria de Segurança do Rio Grande do Norte estimam que 70 % das mortes está ligada ao narcotráfico. Isso seria dizer que de 2001 a 2015, cerca de 429 mil pessoas morreram na guerra das drogas. Em sua maioria são jovens e negros.

O enfoque de proibição sobre a maconha bem como outras drogas relembra a Lei Seca que entrou em vigor nos Estados Unidos em 1920. Apoiada por religiosos, ruralistas e por empresários conservadores, a produção, transporte e comercialização de bebidas alcoólicas foi proibida em todo o país. O comércio ilegal, rapidamente, foi dominado por gangsters, sendo Al Capone um dos mais famosos. A lei se mostrou ineficaz. As pessoas continuavam consumindo e a violência, a corrupção, o suborno de policiais e políticos eram a tônica executada pelas famílias do crime para manter os seus negócios. A violência eclodiu por causa da luta por territórios.

Exemplo de campanha de conscientização
A legalização e o controle do Estado sobre a produção e venda de maconha poderia acarretar várias benesses. Primeiro, é o controle do Estado sobre o produto. A droga poderia ser vendida em postos autorizados e controlados. Segundo, conhecimento sobre a quantidade de usuários e a possibilidade de desenvolver políticas públicas para que as pessoas não consumam, como no caso do tabaco e do álcool. Terceiro, a diminuição do tráfico, que lucra com o produto e, consequentemente, a diminuição da violência. Quarto, geração de empregos formais. Quinto, arrecadação de impostos que poderiam ser revertidos para as áreas de saúde e segurança, além de campanhas educativas sobre o perigo dessas substâncias.

Mas a liberação impedirá o tráfico ilegal? A resposta é não. No Uruguai, país vizinho ao nosso, foi implementada a liberação da maconha. O tráfico não foi eliminado, mas o usuário possui a chance de evitar o mercado negro. Outro país, Holanda, possui leis parecidas e após a liberação da maconha, o mercado ilegal passou a ser mais combatido.

Em 2017, o Rio de Janeiro registrou a média de 1 policial militar assassinado ou morto a cada 2 dias. Para cada policial que morre enxugando o iceberg da criminalidade, o Estado faz novos concurso para enviar outros homens para a morte. É um sistema cruel de moer carne. Todos os dias, traficantes e policiais são mortos. Nos acostumamos a isso.
(Imagem retirada da reportagem "Guerra do tráfico leva caos
 à Rocinha e outras comunidades do Rio, Carta Carta Capital)

A adoção de uma política conservadora que considera a resolução do problema da criminalidade com o aumento do número de presídios ou armando a população, sabemos que será ineficaz. É hipocrisia nossa pensar que os usuários de drogas ilícitas deixarão de existir quando todos os traficantes forem presos ou mortos.

O combate as drogas deverá ser feito através de investimentos em educação, conscientização, ataque as desigualdades sociais e desestruturar a base do tráfico, que é a ilegalidade. Assim, poderemos vencer a guerra contra as drogas.




Sites consultados:





domingo, 29 de julho de 2018

O RATO E O CAÇADOR




Um conto popular de Moçambique.

Antigamente havia um caçador que usava armadilhas, abrindo covas no chão. Ele tinha uma mulher que era cega e fizera com ela três filhos. Um dia, quando visitava as suas armadilhas, encontrou-se com um leão:
— Bom dia, senhor! Que fazes por aqui no meu território? (perguntou o leão)
— Ando a ver se as minhas armadilhas apanharam alguma coisa, respondeu o homem.
— Tu tens de pagar um tributo, pois esta região pertence-me. O primeiro animal que apanhares é teu e o segundo meu e assim sucessivamente. O homem concordou e convidou o leão a visitar as armadilhas, uma das quais tinha uma presa uma gazela. Conforme o combinado, o animal ficou para o dono das armadilhas.

Passado algum tempo, o caçador foi visitar os seus familiares e não voltou no mesmo dia. A mulher, necessitando de carne, resolveu ir ver se alguma das armadilhas tinha presa. Ao tentar encontrar as armadilhas, caiu numa delas com a criança que trazia ao colo. O leão que estava à espreita entre os arbustos, viu que a presa era uma pessoa e ficou à espera que o caçador viesse para este lhe entregar o animal, conforme o contrato.

No dia seguinte, o homem chegou a sua casa e não encontrou nem a mulher nem o filho mais novo. Resolveu, então, seguir as pegadas que a sua mulher tinha deixado, que o guiaram até a zona das armadilhas. Quando aí chegou, viu que a presa do dia era a sua mulher e o filho. O leão, lá de longe, exclamou ao ver o homem a aproximar-se:
— Bom dia amigo! Hoje é a minha vez! A armadilha apanhou dois animais ao mesmo tempo. Já tenho os dentes afiados para os comer!
— Amigo leão, conversemos sentados. A presa é a minha mulher e o meu filho. 

— Não quero saber de nada. Hoje a caçada é minha, como rei da selva e conforme o combinado, protestou o leão. De súbito, apareceu o rato.
— Bom dia titios! O que se passa? — disse o pequeno animal.
— Este homem está a recusar-se a pagar o seu tributo em carne, segundo o combinado.
— Titio, se concordaram assim, porque não cumpres? Pode ser a tua mulher ou o teu filho, mas deves entregá-los. Deixa isso e vai-te embora, disse o rato ao homem. Muito contrariado, o caçador retirou-se do local da conversa, ficando o rato, a mulher, o filho e o leão.
— Ouve, tio leão, nós já convencemos o homem a dar-te as presas. Agora deves-me explicar como é que a mulher foi apanhada. Temos que experimentar como é que esta mulher caiu na armadilha (e levou o leão para perto de outra armadilha).

Ao fazer a experiência, o leão caiu na armadilha. Então, o rato salvou a mulher e o filho, mandando-os para casa.

A mulher, vendo-se salva de perigo, convidou o rato a ir viver para a sua casa, comendo tudo o que ela e a sua família comiam.
Foi a partir daqui que o rato passou a viver em casa do homem, roendo tudo quanto existe...